STUCK IN THE MIDDLE

November 17, 2018

Apesar de não ser adepta do uso de estrangeirismos, quando há alternativa, desta vez a expressão pareceu-me a mais adequada. Stuck in the Middle é o nome de uma série da Disney, que retrata, de forma cómica, o dia-a-dia de uma rapariga com seis irmãos, sendo ela a filha do meio. Por isso, lá está, “stuck in the middle” daquela irmandade, daqueles 3 mais velhos e 3 mais novos, sem ter propriamente um sentimento de pertença a nenhuma dessas duas partes.

 

Pois é assim que me sinto eu. Por enquanto. Aliás, tinha mesmo que escrever isto o quanto antes, pois em breve, muito em breve, deixará de ter sentido. Em breve não estarei stuck em coisa nenhuma e perderei de vez a sensação boa de uma réstia de juventude para me render às evidências de que já estou na velhice. Até custa escrever. Eu, que no fundo, no fundo, me sinto com 18 anos. Aqueles mesmo que fiz ONTEM! Ontem sim, antes de estalar os dedos e vir parar ao dia de hoje. Com os pés frios e dores nas cruzes. Portanto, vou chamar a isto a fase da maturidade, e não da meia-idade, que é uma expressão mais mete-nojo.

 

Mas porquê Stuck in the middle? Porque isto é mesmo um “entalanço no meio”, em que comecei a reparar há uns aninhos. Naquele belo dia em que de manhã me deram passagem com um “a menina pode passar”, e à tarde noutro sítio me perguntaram: “a Senhora dá licença que lhe passe à frente que só levo um pão para pagar?” Mau...Pensei que o tipo da tarde era só parvo; onde é que via tratar por senhora uma pessoa com o meu aspeto? Mas afinal havia qualquer coisa a mudar. E não era só o meu peso... Passando à frente… foi nesse dia que percebi que realmente aquilo que projeto como “eu” já só existe nas fotografias, e não é propriamente o que vejo ao espelho (especialmente sem o corretor de olheiras). Mas também já notei que não acontece só comigo, há uma falta de noção da realidade geral e isso, afinal, é normal. É como aquelas pessoas de 60 anos que se referem a um velho conhecido como “aquele rapaz”. Típico.

 

Desde aquele dia da menina/senhora que tenho andado a contabilizar as ocasiões que me colocam de um lado ou do outro, e, para já, ainda está (mais ou menos) equilibrado. Lembro-me em particular de uma ocasião inesquecível em que um rapaz hesitou em ceder-me ou não lugar sentado no comboio. Olhou para mim com um ar interrogativo e abanou ligeiramente a cabeça. Perdido, e sem se querer comprometer. Seria mau das duas maneiras: ou estaria grávida, mas claramente já fora de época, ou apenas volumosa e ir em pé só me faria bem. Acabei por aceitar sem hesitações ou vergonha, e assimcomássim sempre fiz a viagem mais confortável.

 

Noutras ocasiões, sabe bem ouvir que não pareço nada a idade que tenho, que o pescoço ainda não tem pelede galinha e que posso perfeitamente mostrar os braços. Em compensação, também há quem me diga que tenho que começar a pintar os cabelos brancos e a fazer mais hidratação da pele. Verdade seja dita que estas apreciações vêm, respetivamente, de vendedoras de roupa e de cabeleireiros e esteticistas… Interesseiros desta vida!

 

Ainda me lembro de ficar ofendida quando em certas ocasiões me tratavam por tu, ou pelo nome próprio, e eu achar descabido. Como se tivessem andado comigo na escola. Aquela malta fixe, que nos quer vender uma fidelização no ginásio ou nos telefona para assinarmos uma revista. “Carla, isto, Carla aquilo”. Que saudades… Agora é só Dona, Srª Dona, e o raio que os parta!

 

No meio de rugas, flacidez, manchas na cara e falta de energia, acho aquelas expressões do tipo “Sinto-me muito melhor agora aos 50 do que aos 20”, que tantas vezes oiço, uma grandessíssima treta! Mentirosas! Não sei se ria, se chore. Quem me dera agora ter 20 anos e ser parva, ter 20 anos e ser ingénua, (ter 20 anos e ser gorda na mesma), ter 20 anos e o único “stuck” da minha vida ser entre um jogo de cartas ou uma aula de Contabilidade analítica…

 

 

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