MODERNICES IRRITANTES

January 16, 2018

Há palavras e expressões que emergiram sabe-se lá de onde, invadiram o que se diz e o que se escreve e não há dia em que não me depare com elas. Pois não me caíram no goto, reviro os olhos cada vez que as oiço e ainda estou para saber de onde vieram.

Isto se calhar é só mau feitio…. Mas por que raio é que se dizem estas coisas?

 

 

COLABORADOR – é na verdade o empregado, quem trabalha para o patrão, quem faz alguma coisa em troca de um salário, e por aí… Já não é, como antigamente, quem ajuda ou coopera com a mãe a fazer compotas na cozinha, ou ajuda a vender rifas para os escuteiros. Colaborar agora significa trabalhar, mas isso hoje em dia parece mal dizer. Que mania esta em que já ninguém se diz empregado de ninguém.

Conheço pessoas que, a bem da verdade, apenas colaboram aqui ou ali com o chefe, quando é mesmo, mesmo, mesmo  preciso fazer alguma coisinha… mas não me parece que isto se aplique a toda a gente.

Para mim colaborar continua a ser viabilizar alguma coisa, não criar entraves…. Agora trabalhar, não… trabalhar é outra coisa e chamar colaboradores aos empregados para mim é até ofensivo. Não pertencem, não trabalham… dão só uma mãozinha: colaboram..

 

 

TOP – é o máximo dos máximos, sei lá, melhor é impossível, excedeu as expectativas, rompeu com a escala, etc, etc. Sinceramente, não sei de onde isto veio, mas calculo que não seja do velhinho TOP + (quero acreditar que há dinossauros a ler isto). Hoje em dia o almoço foi top, o filme que vi ontem foi top, aquela pessoa é top, o carro é top, e eu já vomito top por todo o lado!

 

 

ANDAR A MIL – “Ai, amigos, sabem lá, desculpem nunca mais ter dito nada, mas ultimamente ando a mil”. Em excesso de velocidade portanto. O meu conselho é que tenham cuidado com isso que é capaz de ser perigoso. Ou não… se calhar o limite de velocidade da vida é quinhentos mil. Ou dois milhões. Será que andar a mil é pouco? Sei lá, só sei que agora anda tudo a mil e qualquer dia dá-se um choque em cadeia por causa disso.

 

 

COM MUITA PINTA – há os miúdos com pinta, as mães com pinta, os artistas com pinta… é tanta pinta que tanta gente tem, em todo o lado, que acho que hoje em dia quem tem pinta é mesmo quem não tem pinta nenhuma. Perceberam? Se não desculpem, é que eu ultimamente ando a mil e já não digo coisa com coisa.

 

 

À SÉRIA – A sério? Sou só eu ou o sério passou a séria de há uns tempos para cá? A mim dá-me uns nervos quando oiço isto…. pois que agora tudo é “à séria”. Apanham-se sustos à séria, treina-se no ginásio à séria, estuda-se à séria, magoamo-nos à séria e por aí em diante.

Pergunto-me quem terá sido o primeiro colaborador de um jornal que usou isto? E a primeira tia que em vez de fazer as coisas à balda afinal passou a fazer à séria?

Tenham dó!

 

 

SÓ QUE NÃO – esta está agora a ganhar terreno, cá para os meus lados. Nos meus ouvidos já ecoa assim de mansinho em crescendo…. Uma vez ao dia, duas vezes ao dia…. Ui…

Cheira-me que a coisa não deve ser tão recente, mas que agora me faz respirar fundo umas dez vezes antes de a) sorrir amareladamente; b) ignorar até que passe; c) gozar o prato e desmontar tudo perguntando o que se quer dizer com aquilo. Irrita-me ouvir uma frase a que se segue de imediato um só que não.

Ao início até tem graça. Só que não!

 

Resumindo: pior que o uso de tantos estrangeirismos é mesmo não enriquecer devidamente o nosso vocabulário e andar sempre à volta do mesmo. Usar o que está na moda até cair para o lado. Expressões ridículas ou despropositadas que se usam até à exaustão poderiam perfeitamente ser substituídas por tantas outras que fazem parte do nosso rico Português. E essas sim, genuínas e decerto com muita pinta. Lição de moral da semana dada!

 

 

Deixei para o fim o cúmulo dos cúmulos do irritante, que também anda muito por aí. Deve ser para poupar tempo e espaço, que hoje há que ser rápido e eficaz:

 

BOAS – esta é para mim uma facada no Português, na gramática, nos Lusísadas, nos professores de Português, na Edite Estrela, etc. Então verbalmente, dito assim em segundos, como que atirado para o ar, é do piorio. A primeira vez que ouvi isto fiquei na dúvida das intenções do interlocutor, pois era de manhã  e nós éramos duas mulheres. Só depois caí em mim, boas não se aplicava bem ao nosso caso e percebi que era o cumprimento base daquela pessoa (senão a esta hora também já aqui andava com o #metoo!)

De manhã. De tarde. De noite. Com chuva ou sol. Boas! Para dar vivacidade. E boa vontade (?). SÓ QUE NÃO!!!!

 

 

 

 

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