OS DONOS DISTO TUDO

December 19, 2017

Esta expressão tornou-se conhecida há uns tempos, a propósito de uma bronca nacional. Quanto a mim, foi mal empregue, pois os verdadeiros Donos Disto Tudo são pessoas que não ocupam oficialmente lugares de poder mas mandam de verdade e são reis e senhores disto tudo.

 

Ressalvo que os Donos Disto Tudo não representam uma “classe” por inteiro, longe de mim generalizar, mas sim algumas pessoas que tive a felicidade de observar e com elas aprender alguma coisa (nomeadamente a espumar da boca, por vezes). Com quem me tenho cruzado ao longo da vida. Estas sim têm o poder, o estatuto e a importância que as colocam num patamar superior em relação a nós, comuns mortais.

 

 

MULHERES CONDUTORAS

 

Esta espécie é do mais poderoso que há. De ar altivo, inevitavelmente de óculos escuros, sérias, invariavelmente muito direitinhas e esticadas, pois mais chegam ao volante; imponentes mesmo, e, se por acaso conseguíssemos visualizar o que lhes vai na cabeça em género de balão de pensamento, veríamos coisas como:

“Não te deixo passar, não te deixo passar, não tens prioridade, não te deixo passar. Toma!”

“ Estás com pressa, passa por cima, não vês que eu é que vou à frente? Livra-te de apitar outra vez!”

“Isto não é à vez, eu é que estou na estrada, aguenta-te aí que eu não te vou dar abébias, não te deixo entrar”

“Não te deixo passar, não te deixo passar, não tens prioridade, não te deixo passar. Toma!” (recorrente…)

O caso complica-se quando a outra parte é também uma mulher. Aí quase que poderíamos ouvir um risinho de satisfação perante o sucesso: “Não passaste, eu é que estou na estrada, não tens prioridade, não passaste”. Ou mesmo um rosnar ameaçador quando o momento da disputa chega. Experimentem tentar entrar na autoestrada, com pisca e tudo, e ter a sorte de só lá virem mulheres…Haja paciência até um homem dar passagem…

 

 

 

JOVENS EMPREGADAS DE LOJA DE ROUPA

 

É bem verdade; nunca me apercebi bem disto com homens, que estão geralmente mais preocupados em vender e em atender o cliente do que em medir forças de poder (ou então ainda estão a pensar no resultado do Benfica- Guimarães da véspera).

 

Normalmente entro na loja e a empregada:

1 - Olha-me de alto a baixo, a aferir se terei dinheiro para comprar alguma coisa e se deve deixar a meio o SMS para o namorado por uma tipa que tem ar de estar só a passear;

OU

2 - Continua a contar à colega como resolveu o problema dos pelos encravados e que no fim-de-semana vai arranjar as unhas e mudar de cor. Isto sem se quer olhar para mim, nem me cumprimentar, OBVIAMANTE! Só o aborrecimento se eu me atrever a perguntar alguma coisa…

OU AINDA:

3 - Fala para mim como se fosse um extraterrestre e completamente ignorante por não saber as equivalências dos tamanhos ou não dar com o preço de uma peça (que como sempre está bem escondidinho como um segredo irrevelável e a implicar dotes de detetive para o encontrar).

 

Reconheço que tenho medo delas, de desarrumar a roupa delas ou de cair no erro de experimentar alguma coisa que não me sirva. Para além da humilhação de pedir o número acima (ou dois…), estou a dar trabalho às coitadas que tiveram de interromper a conversa no facebook.

 

 

 

ASSISTENTES DE BORDO

 

Eles são o máximo: lindos, altos e espadaúdos. E elas bem maquilhadas, de luvas, de lenço, de boina, de qualquer coisa, sempre distintas e chiques. Falam línguas, andam altivamente e têm os dentes branquinhos. Ao pé deles, nada me resta senão encolher-me e desejar ter menos 20 anos, menos 20 quilos, menos 200 rugas e menos 200 cabelos brancos. Bolas!

 

E elas, do alto dos seus não sei quantos centímetros de saltos, com a sua cara séria, olham com desdém para quem anda sempre em terra, não se equilibra nas turbulências, e não tem uma farda tão gira. Enchem o peito cada vez que servem um café ou um chá e cedem ao pedido de mais um copinho de água.

 

Um dia destes passo-me e digo-lhes tudo o que me vai na alma: servir um cafezinho não é assim tão difícil, oferecer sacos para o vómito alheio não tem nada de charmoso, e para além disso eles também não vão para novos, que lá nisso há uma igualdade espantosa no universo. Ah, e já agora, só olham de cima para baixo porque na verdade eu vou sentada!

 

 

 

EMPREGADOS DE RESTAURANTES DA MODA

 

Por estes dias, assim como a palavra cozinheiro está em extinção e agora tudo é Chef, os empregados de mesa também devem ter outro nome, eu é que ainda não descobri qual. Mas é curioso ver como de repente ir a certos restaurantes se tornou tão caricato e mesmo do outro mundo. Em vez de nos acolherem com simpatia e com verdadeiro sentido de atenção ao cliente, nós é que temos que ter atenção para não adormecermos enquanto “estão a preparar a mesa”, ou, em vez disso, não nos deixarmos levar pela espera e entretanto consumir (e pagar bem no fim) umas tantas bebidas de aperitivo.

 

Passei há pouco tempo por uma destas: O restaurante (e não um café/snack/tasca) teve que “preparar a mesa” por cerca de 45 minutos enquanto esperávamos na sala de entrada. A preparação, pensava eu, faria encontrar uma mesa com uma toalha bordada de fresco, cadeiras polidas ainda a cheira a óleo de cedro e quiçá guardanapos personalizados com o nome de cada conviva. Pois não…. Afinal a mesa era em pedra, sem toalha nem individuais, a comida servida na (tão original!) ardósia e os preços, esses sim, bastante, digamos, seletivos.

Um empregado (cuja função eu aposto que hoje em dia se chama algo como Customer operations manager ou Client services assistant, ou coisa que o valha), cheio de estilo (pelo menos emproado) e com fato preto + auricular (deve ser para falar para o Chef na cozinha a pedir mais sal nas batatas fritas) veio cerimoniosamente dar as boas vindas, desejar uma boa refeição e blá blá blá blá blá. Depois apresentou a não-sei-quantas que, enquanto o grupo falava animadamente, impôs-se impaciente com um “posso falar agora?”, ao qual toda a gente quase respondeu com uma continência.

Esta diria eu Table operative assistant ou Sales effective manager, lá explicou ao que vinha, sugeriu o que queria e não disfarçou o seu desagrado quando afinal apenas conseguiu vender os elementos da ementa mais baratos, o vinho mais em conta e não o menu caro-com’um-raio de degustação.

Por fim, o seu próprio Assistant in practice lá foi servindo os pedidos, tendo antes que confirmar se o Chef autorizava um acompanhamento diferente do estipulado num dos pratos.

 

É seguir as regras impostas, comer com uma sombra sempre por perto e disfarçar quando se faz contas ao valor final a pagar. E agradecer o privilégio de lá termos sido recebidos.

Bem, tivemos neste caso a bela imagem do Assistant in practice (fora a companhia, claro), para valer a pena.

 

 

 

FUNCIONÁRIOS DE SERVIÇOS PÚBLICOS

 

Aqui não há volta a dar: eu, pessoalmente, dou comigo com risinhos nervosos, a encolher-me na cadeira, e por vezes quase a desaparecer, só para não irritar ninguém, não exaltar os ânimos, não vá ter que lá voltar depois de 2 hora de espera. Desde o típico “Próximo!” até ao cúmulo da sisudez, quantas vezes não me habilitei já a fazer saltar a tampa às excelências com uma singela e inocente pergunta? Lembro-me de estar certa vez ao balcão de um serviço e dizer que tinham saltado a minha senha, e assim num segundo a funcionária dizer alto em bom som que “você não fala assim para mim!”. Desde esse dia que tento mesmo não falar de todo, mas como o Estado não deve dar as horas mínimas de formação anual aos empregados, eles ainda não me conseguem entender por telepatia. O que é uma pena, porque eu escusava de mendigar por palavras que façam a obrigação deles.

 

 

Os Donos Disto Tudo andam por todo o lado de facto, e cada vez são mais, tenham cuidado com estes, que pelo menos já estão identificados.

 

 

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