VIDA DE CÃO

October 14, 2017

Serve a presente (carta, escrita, posta de pescada, missiva, mensagem, o que quiserem!), para informar o povo de que esta expressão vai passar a ser proibida. Já está alinhavado o projeto de lei que estipula ser ofensivo para o cão usar a vida dele como exemplo. E sou eu que estou a alinhavar. Porque sou uma pessoa moderna.

 

As pessoas modernas, informadas, inteligentes, à frente do seu tempo, fazem estas coisas. São visionárias e dedicam-se ao que realmente interessa nesta vida. E petições, muitas petições, que também estão na berra. Sobretudo acerca de temas da máxima e prioritária relevância para a nação.

 

Vou portanto começar por fazer uma petição para a proibição de usar a imagem do cão, a palavra cão, ou outras referências semelhantes em frases ofensivas, descabidas, maldosas e deploráveis como esta. Uma verdadeira afronta.

 

E ainda levantar uma povidência cautelar contra os anúncios ao Quitoso, que apelam à chacina de animais indefesos e inocentes, e quiçá levando à sua extinção. E marchar contra os mata-moscas, não pela destruição da camada de ozono, mas para defender as ditas da típica vida de mosca: um passeio mais atrevido e zás trás, menos uma para contar a história.

 

Petições e marchas sobre temas fraturantes, que é também um termo moderno. Perdão, já estou a trocar tudo; isto afinal não é um tema fraturante, é consensual….Defender os animais através das mais inteligentes e urgentes medidas!

 

Pois, para que conste, a vida de cão já não é o que era, felizmente! E ainda bem, pois estou desejosa de poder levar os meus bichinhos aos restaurantes e muito contente que seja em breve.

 

Aliás, eu, visionária, bem avisei num post anterior onde está o  futuro eleitorado, e cheira-me que não andamos longe disso. Até faz sentido: em domingo de eleições, os bichinhos votam e depois podem ir almoçar fora, que também merecem.

 

Só acho mal esta gente não fazer as coisas completas e ser só assim muito no geral. Por isso, a propósito dos projetos aprovados hoje, aproveito para levantar aqui as minhas dúvidas, que ainda não consegui esclarecer e são deveras pertinentes:

 

  1. A despesa dos animais no restaurante é taxada a que % de IVA? E também vai entrar para o IRS? Qual a gorjeta mínima aceitável?

     

  2. O WC vai passar a ter três cubículos? Homem, mulher e animal? Se calar a ASAE vai exigir quatro: homem, mulher, bicho-macho e bicho-fêmea. Um contratempo por causa das obras… Ou então é só fazer como na rua: deixai-os fazer onde quiserem, com ou sem saco para apanhar as poias (que maçada), que é indiferente.

     

  3.  A ementa dos bichos será escrita em que língua? E terá alternativas para os alergénicos? Vegans? Sem glúten? Sem lactose? Leite de arroz para os gatos mais sensíveis? Alpista macrobiótica para os canários puristas? Opções da dieta paleo? Do vegetarianismo?

     

  4. Como evitar que o meu peixinho Gastão seja engolido como entrada por um gato qualquer? Os restaurantes terão seguro contra predadores e farta-brutos? Mais uma despesa… sempre a somar…

     

  5. Como será a sinalização à porta? Tipo “não são permitidas crianças choronas e birrentas, fumadores, sem abrigo esfomeados, velhinhos surdos e pelintras, vendedores ambulantes que dão má fama à casa, mas cães e gatos, cágados, porquinhos-da-Índia, coelhos brancos e hamsters façam favor, sem consumo obrigatório nem reservado o direito de admissão: são família e a família não se despreza nem se deixa em casa e muito menos à porta”.

     

  6. Vai-se fiar? E haverá livro de reclamações para dizer mal da ração e do serviço?

     

  7. Afinal o que é um animal de companhia? É que há baratas que são a única companhia de muito boa gente… mas esses também não têm dinheiro para ir ao restaurante, esqueçam!

     

Pensando bem, há muita coisa por esclarecer, e não sei se os lucros que se avizinham compensarão tanta chatice à restauração. O melhor é mesmo apostar num negócio já com provas dadas, como por exemplo o serviço de creches e centros de dia para animais, venda de acessórios de moda, como casaquinhos de lã, mochilas (!!) e  brinquedos, parques exteriores semelhantes aos das crianças (uma espécie em extinção), hotéis, SPAs, organização de casamentos (!!), clínicas veterinárias, minimercados para animais, etc, etc, etc.

 

Ou então, converter os Centros comerciais antigos que já ninguém frequenta num sítio onde os animais de companhia podem usufruir de tudo isto. Um sonho!

 

Pode ser que assim, com espaços dedicados e exclusivos, os bichos deixem de passar horas INFINITAS a uivar, miar, ladrar, ganir, arranhar, eu sei lá, quando os donos queridos, fofos e dedicados os deixam sozinhos em casa, ou na varanda, ou mesmo só na cozinha a atrofiar e a desesperar, sem perceber porque mereceram tamanho castigo (lá nisso os cágados são impecáveis, verdade seja dita, que aquilo são uma paz de alma!).

 

E aqui está encontrada a razão para os projetos que hoje se aprovaram. Na verdade, o que se pretende é acabar com os maus-tratos aos animais, essa nobre intenção. E legislar de acordo com isso. Agora é só uma forma criativa de o fazer, dando o primeiro passo: “Ai queres deixar o animal a penar em casa de manhã à noite? Já não tens desculpa, já o podes levar para o restaurante!”

 

 

 

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