EU, CANDIDATA

October 1, 2017

 

Em dia de eleições, sei que o silêncio impera, e só se pode mesmo falar de futilidades, do tempo e da Catalunha. Mas depois da profunda reflexão que levei a cabo ontem, dei por mim a pensar que, quiçá, um dia não serei eu candidata?

Não é muito difícil de facto: basta ter um slogan suficientemente apelativo, recolher umas assinaturas e algum dinheiro para cartazes. Ideias e propostas, que apesar de tudo, não interessam para nada, também não faltarão. O céu, como agora, é o limite. E promessas então… Ui, serão, também como agora, aos milhares.

Para a posteridade, aqui fica já tudo alinhavado, que nunca se sabe o dia de amanhã. Querendo, sobretudo, realçar o que me distingue dos comuns candidatos municipais.

 

Eu, candidata, terei o seguinte slogan: “CARLA, A MAIS LIVRE, FELIZ E INOVADORA, AMIGA DOS POBRES, QUE JÁ ANDOU DE AUTOCARRO, À FRENTE DO SEU TEMPO, ATIVISTA EM PROL DAS PESSOAS, DOS ANIMAIS, DAS COISAS E DO SEU PRÓPRIO BOLSO. – Simples, consensual, honesto e direto ao assunto. Em nota de rodapé posso ainda acrescentar outras coisas, como o nome de todas as pessoas que conheço ou que já cumprimentei, as marcas que já me venderam algo e os meus extratos bancários (apenas das contas em Portugal), para os adversários não terem em que pegar.

 

Eu, candidata, não desperdiçarei, como agora se faz, tantas maneiras de fazer campanha. Como é possível esta gente ignorar as montras das lojas e as camisolas dos jogadores de futebol (sítios para onde a população em geral olha DE CERTEZA); a estrada (assim tudo pintadinho para a malta ir no carro a ler, como se fosse a seta a indicar o Porto, o Algarve, Vila Franca de Xira, etc, que já toda a gente conhece…); os pacotes de açúcar (se toda a gente bebe café e tem que levar com aquelas tontices dos provérbios e receitas, que já não se aguentam, porque não a minha cara laroca com o quadradinho para por a cruz?); panfletos discretamente colocados nos sacos de papel das farmácias (sempre será mais agradável chegar a casa e ver as minhas propostas do que o panfleto da pomada para as hemorroidas ou para os fungos dos pés) e tanto, mas tanto espaço que ainda sobra para além dos 1.456.678.89.400 cartazes que existem por aí na rua? já agora, alguém já se lembrou por exemplo dos talões do Continente?  Ah, pois… imagine-se o impacto de, no meio daqueles 50 que recebemos em cada compra, a preto e branco e sem gracinha nenhuma, houvesse um a cores, florescentes, de preferência, a apelar ao voto em mim? Espetacular, eu sei!

 

Eu, candidata, não permitirei o uso de fotoshop em nenhuma fotografia minha. Prefiro aparecer com as rugas, manchas da idade e um pelito ou outro mais rebelde no buço do que enganar os eleitores. Lamento o desapontamento, mas em geral a pele dos candidatos não é tão esticadinha, lisinha e rosadinha como uma boneca de cera – elas – nem tão bronzeada – eles (mesmo depois das plásticas, a sério!). E na verdade, têm mais uns dez anos do que aparentam nas fotos... Ora, para quê desiludir os eleitores quando os vêm ao vivo? Não acho bem. Já para não falar naqueles que nem com fotoshop lá vão….

 

Eu candidata, não farei figuras tristes. Apenas aquelas que já é típico fazer, entenda-se. Mas não espero de repente dar em beijoqueira e desatar a abraçar todo o bicho careto, mesmo os que me ofendem e me chamem nomes. O meu sorriso amarelo não é forte o suficiente, e nessas ocasiões o mais provável será desatar ao estalo ou ao pontapé. Mas nada de figuras tristes!

 

Eu candidata, irei oferecer brindes realmente úteis: nada de T-shirts, canetas, balões e afins. Serei mais inteligente e oferecerei Iphones (para motivar as selfies comigo e postagens à grande no facebook, ou seja, sempre próxima do eleitorado); coletes refletores com a minha cara, para os milhares de runners e ciclistas de fim de semana, mais conhecidos por empatas da estrada poderem fazer propaganda como deve ser;  e ainda coleiras e trelas personalizadas com o meu nome para os animaizinhos, hoje em dia conhecidos por pets, e reis e senhores de uma família que se preze (e, por este andar, certamente futuros eleitores; vejam lá se eu não tenho jeito para a coisa!)

 

Eu candidata, não serei hipócrita. Irei MESMO gostar de toda a gente, apresentar soluções para TODOS os problemas do concelho ou do país (quem sabe a candidatura venha a ser para PR) e genuinamente ter vocação para SERVIR os meus concidadãos Também vou querer a paz no mundo, preservar a natureza, respeitar a diferença e que os povos deem as mãos em harmonia a cantar aleluia, aleluia. E assim se não ganhar as eleições sempre me posso candidatar a Miss Mundo!

 

 

Eu, eleita, não terei jobs for the boys. Só para homens feitos. Os que tiverem votado em mim, não tenham dito mal de mim e se chegarem à frente para comparticipar as despesas da campanha, que o Sr. Belmiro não brinca em serviço.

 

Eu eleita, terei um ataque de amnésia e não me lembrarei do que prometi. Não há como fugir disto, e é lamentável que a ciência já tenha vacinas para tudo e mais alguma coisa, menos para esta praga. A culpa não será minha….

 

Eu eleita, vou fazer estradas, parques, hospitais e escolas com fartura logo de enfiada no início do mandato. E um aeroporto, e um porto de navios. Aliás, 3 aeroportos e 5 portos. Ninguém alguma vez conseguirá bater isto. Haja orçamento, luvas e empresas construtoras que se queiram expandir. Pronto, arrumo logo a concorrência. E posso descansar a seguir, sem ter que fazer tudo à pressão antes de novas eleições. Uma tradição que quero quebrar para, mais uma vez me diferenciar. E não massacrar os coitados dos trabalhadores que têm que dar o litro nesses últimos meses, depois de não fazerem nenhum nos primeiros tempos (para quê, realmente?)  Até porque não me irei candidatar mais que uma vez, para não criar ondas. Só tenho que entretanto arranjar um primo taxista na Suíça ou um grande amigo que me empreste dinheiro (porque eu sou muito consumista).

 

Posto isto, só me falta escolher quando e onde me candidatar. Sem problemas nem stress, pois é sabido que tanto faz. Não preciso ter nascido lá, viver ou sequer conhecer o sítio, saber a história, o nome das ruas ou mesmo o nome do Concelho. Venham as subvenções e os donativos que o resto tudo se faz!!

 

Partilhar no Facebook
Partilhar no Twitter
Partilhar no LinkedIn
Partilhar no Pinterest
Partilhar no Google+
Gostar do Post
Please reload

SOBRE AGOSTO

August 10, 2019

DELÍRIOS

July 13, 2019

1/12
Please reload