• Carla

NÓS, TOTÓS

Mais uma época que começou. Um dos regressos anuais, desta vez à escola, ao trabalho, à "vida real", como muitos lhe continuam a chamar. Como se hoje em dia a nossa vida não se tivesse tornado tão real, tão real, que até dói. Não, não voltamos a vida real nenhuma, continuamos no meio da realidade imposta, que não deixa de ser um sonho, mais ao género pesadelo.


O que constato cada vez mais é que, com pandemia ou sem pandemia, com abraços ou sem abraços, nos temos vindo a tornar mais totós: meros seguidores deste ou daquele, que por sua vez, sem ideias próprias, sem novidade, seguem simplesmente a copiar aquilo que os nossos antepassados, eles sim, criaram. Nós, em geral, os totós, pomos os plagiadores musicais a um canto, já que a nossa vida se tornou, ela própria, um plágio geral.


Afinal, onde é que está a novidade?


JEJUM INTERMITENTE - Oh, pachorra para isto....toda a gente fala do mesmo. Estar sem comer horas a fio, aguentar estoicamente a fome e deixar que o corpo queime a gordura.... Grande coisa! Já os nossos avós o faziam, e não andavam para aí feitos gabarolas a apregoar por todo o lado...Levantavam-se e lá iam trabalhar sem nada no estômago, ou, se houvesse "tempo" naquele dia, lá bebiam uma bica para enganar. Um jejum intermitente do mais eficaz! Fome com fartura de sol a sol, e, para os resultados serem ainda melhores, à noite faziam render o jantar com mestria para não quebrar as fases da dieta... E lá seguiam a sua vidinha super elegantes!


NOVAS COLEÇÕES DE ROUPA - Mais uma invenção dos tempos modernos que não o é. Ainda há dias vi numa montra umas calças de ganga todas esburacadas a custarem os olhos da cara. E o que se vê por aí de vestidos e t-shirts tingidas que já não se aguenta? Um tal "Tie Dye". Sim... afinal a nova coleção é uma treta. As peças são todas aproveitadas - modernices fingidas pelas quais pagamos felizes e contentes. Tanta roupinha rota, esburacada, tingida, que sempre se usou... E sem gastar dinheiro, atenção. As pessoas eram mais inteligentes: faziam isso tudo em casa e não tinham que pagar a marcas, como nós, totós!


ROUPA EM SEGUNDA MÃO - Moda super atual, sei lá! Grande invenção, pff.... Sempre se usou roupa em décima quarta mão, e mesmo assim só quando se desfazia mesmo é que ia para o lixo... Não sem antes passar a pano de limpezas. Umas calças vermelhas de uma prima em terceiro grau acabavam nuns calções rosa bebé da filha mais nova do irmão da amiga da mãe. Ah, e não se comprava, era dada mesmo.


DESTRALHAR - Fica tão bem hoje em dia dizer que se destralha! Até há quem perca tempo com gráficos, esquemas, workshops, palestras, folhas de Excel...para aprender a ver-se livre do que acumula em casa. E ficam todos satisfeitos com os resultados, veneram os gurus que ensinam como, pagam para aprender a por monos no lixo... Poupem-me! Há muito tempo que isso foi inventado: era dar uma volta geral à casa e andava tudo num virote. Para dar aos mais pobres e para manter a casa organizada.


RESPIRAR - Já não aguento dar de caras com aqueles conselhos e teorias que emergem todos os dias acerca da importância de me reconectar, de parar, ouvir o meu pensamento... ou não pensar, para sentir o meu "eu" interior.... para simplesmente respirar. Que raio de modernice... Acho que grande parte das mulheres, por exemplo, quando param é porque já apanharam a roupa toda e estão a ganhar coragem para a passar a ferro. Ficam mesmo reconectadas!

Vou respirar fundo só para me esquecer de que há alguém a lembrar-nos disto. Antigamente também se respirava, não era?


Nós totós..... que tal simplesmente agradecer as novidades que a vida nos dá em vez de copiar o que já não é novo?

Ai, bolas, caí no mesmo erro e fui também atrás da última novidade fingida que é a do AGRADECER......



Photo by Alicia Petresc on Unsplash