• Carla

NOVAS PROFISSÕES


Desde sempre que fez alguma espécie a existência de um Instituto chamado “Instituto de Novas Profissões”, que afinal é mesmo o Instituto Superior de Novas Profissões, querendo ser rigorosa. Nunca percebi como haveria uma instituição capaz de definir o que são as novas profissões a cada instante. Novas profissões hoje não serão certamente as de amanhã, nem coincidem com as de ontem, digo eu. Sempre pensei portanto que os cursos mudassem de ano para ano.

Sinceramente não sei o que para aquele Instituto são de facto as novas profissões, mas decerto que não são as verdadeiras, aquelas que urge ensinar às novas gerações.

Ora vejamos: se quisermos identificar as verdadeiras novas profissões, basta fazer um levantamento da procura atual da população, das necessidades do consumidor e até mesmo das lacunas dos que as exercem atualmente. E não acredito que o Instituto tenha ainda essa oferta, o que é pena. Aqui estão as novas profissões, vão por mim:

Comentador de TV – Não sei em que Instituto se formam ou aprendem a comentar, mas deve ser um sítio com muitas turmas. Ninguém chumba. E deve-se ganhar bem. Alcança-se estatuto, tempo de antena e visibilidade nacional. Eu pessoalmente invejo-os. Dizem as coisas com tal propriedade que acredito piamente ser verdade. O que lhes vai na alma, com erros gramaticais e tudo, que ninguém se importa.

Aquela coisa de acreditarmos em algo porque “disseram na televisão” ganhou outro sentido. É que atenção: é um comentador que diz, não é qualquer leigo! O que é fantástico pois assim escusamos de pensar com a nossa própria cabeça, que dá imenso trabalho.

O carisma dos comentadores vem precisamente daí. Admiro-os, reconheço-lhes todo mérito, sapiência, credibilidade do mundo. E penso: “Uau! Esta pessoa não é jornalista, nem escritor, nem padeiro, nem médico, nem sapateiro, nem nada dessas banais profissões. É comentador!" Sim, comentador, essa nova profissão. Excelente! E ainda mais que se deem ao trabalho de pôr na imagem a legenda de que o Sr. XPT é “Comentador RTP” ou de outra estação qualquer. Pois fico muito mais descansada quando vejo isso. Não é uma pessoa qualquer que fala sem conhecimento de causa do tema em questão, se é comentador, está tudo bem! Sem dúvida uma profissão com saída.

Agente funerário – não será só impressão minha, mas o número de agências funerárias está a crescer exponencialmente. Só na minha zona existem 4(!) num trajeto de 1 Km (diz o Sr. Google maps que nunca me faltou) e isso não é uma vista agradável. Uma pessoa vai dar uma volta ao domingo à tarde com a família e as montras só têm velas, orações e promoções de cremação 2 em 1, para além do número de telefone de atendimento permanente. Fica-se logo deprimido. O que vale é que em caso de aflição uma pessoa tanto pode correr para a direita como para a esquerda que encontra uma agência de certeza.

Na verdade isto faz todo o sentido, tendo em conta o envelhecimento da população e a necessidade de enterrar tanta gente condignamente. Um sinal de que basicamente estamos a ficar velhos. O facto é que a estimativa do índice de envelhecimento da população* (dados 2015), é de ~143%, comparando com os 27% de 1960 (sempre a subir, ano a ano). Conclusão: um futuro promissor para os (poucos) novos é começarem a ter formação nesta área, em vez de andaram para aí a criar startups sem jeito nenhum.

Audiologista – As lojas que compram ouro já eram! Depois de esvaziarem os guarda-joias e limparem o ouro de casa, o que as pessoas sensatas agora fazem é testes auditivos. Na mesma zona das funerárias, e em 2Km de distância, posso encontrar 3 centros auditivos, cada um de sua marca. O que é bom para fazer um levantamento comparativo de preços, que os aparelhos não devem ser baratos. Até porque o dinheiro do ouro já lá vai. Ainda não tive necessidade de lá ir (ainda!) mas acredito que um bom audiologista (e com boa voz, com um timbre de grito) seja essencial. Jovens deste país, uma profissão com saída!

Optometrista/oculista – Tal como as funerárias, outro tipo de cogumelos que desatou a despontar por todo o lado foi o das lojas de óculos/visão. Em cada esquina há um oculista pronto a entrar em ação (e de bata, claro está). E se fazem crer que usar óculos é super fixe e que dá uma imagem jovem, coiso e tal, isso é tudo uma farsa. Na realidade é também o envelhecimento da população que faz com que cada vez haja mais pitosgas a precisar de uma armação nova e umas lentes mais grossas, essa é que é essa!

Os optometristas têm ainda, a meu ver, uma grande saída nos sítios onde há óculos à venda sem a devida atenção ao cliente: feiras, lojas chinesas e hipermercados. E até os vendedores de óculos escuros na praia deveriam ser formados. Não sei como o Instituto de Novas Profissões ainda não se lembrou disso. Ou a ASAE….

Para já, e embora não saiba qual, quero deixar um louvor público ao optometrista que serve o Presidente do Sporting, pois dá-lhe sempre muitos bons conselhos para a saúde dos seus olhos. Tudo fechadinho de noite para não deixar entrar o pó nem os ácaros dos lençóis.

Coacher – Não sei quem os forma, mas esta profissão está a captar gente que nunca mais acaba. Há coachers por todo lado, para tudo e mais e alguma coisa. E com esta mania de só falarmos estrangeiro, ninguém pergunta exatamente o que quer dizer com vergonha. Desenganem-se os que pensam que é estofador, um daqueles profissionais que forra sofás a gosto. Se os quiserem contratar para isso, é só sinal de mau Inglês.

Acho que um coacher é um treinador, que serve para desenvolver as competências de cada um, alcançar resultados, ser melhor (?) e mais uma catrefada de coisas que se podem ler na internet. A minha dúvida é só esta: quem “coacha” o coacher? Quem é suficientemente bom e perfeito para isso? E quem os coacha a esses consequentemente? Será que há o coacher dos coachers dos coachers? Deve haver.

As lojas de óculos também são muitas na minha zona, atenção, mas comecei a contá-las de cabeça e perdi-me. Sei que superam as funerárias e as lojas de audição. O que só prova que sou uma sortuda: vivo numa área preparada para a velhice, o que é sempre bom! Vendo pelo lado positivo, claro. Pelo negativo é que é pior. Acho que vou contratar um coacher para me ensinar a enfrentar o inevitável e saber encarar o futuro com confiança e sucesso! É que ainda não ouvi nenhum comentador a falar do tema...

* índice de envelhecimento é o número de pessoas com 65 e mais anos por cada 100 pessoas menores de 15 anos. Um valor inferior a 100 significa que há menos idosos do que jovens. Fonte: Pordata

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